segunda-feira, 9 de julho de 2012

GE – parte 7: a cirurgia emergencial

Relatos de uma GE – parte 7: a cirurgia emergencial

Chorei horrores no relato anterior. Doeu muito saber que víamos uma vidinha sem direito a viver.
O Adri ligou para minha mãe, chorando e falou que ficaríamos por lá mesmo. Só deu tempo dela se organizar e pegar estrada em nosso encontro.
Depois do exame, tudo passou muito rápido. Fomos novamente a clinica, a medica nos atendeu, e confirmou tudo novamente. Disse que os médicos do exame ligaram também para ela. Não tinha muito o que ser dito, afinal já estávamos com os pés no chão e conhecíamos algo sobre os procedimentos. Foi importante termos informação, o pânico foi controlado por isso.
Ela olhou para meu marido e disse que ele estava certo, como poderia... Falei para ela que sentia algo diferente que não há como explicar, não tem ciência que explique sexto sentido, percepção e o tal pegar algo no ar.
Ela falou que tentaria poupar o possível, disse que a possibilidade era mínima em poupar a trompa direita, mas afirmou que se fosse possível meu ovário ficaria intacto. Falou que seria feita uma incisão como uma cesariana, pois operação por vídeo estava descartado, tinha a necessidade de drenar o liquido acumulado na cavidade do abdômen.
Claro que faz parte toda essa explicação, e é necessária. Mas eu queria o meu neném.
Desde a noite anterior eu não havia ingerido nada. A irritação foi tanta que meu estomago e intestino ficaram em stop. De certa forma isso foi bom, agora eu passaria por uma cirurgia e estar em jejum era importante.
Saímos da clinica com o pedido de internamento e agendamento da cirurgia nas mãos. A medica já havia ligado para o hospital, reservado leito, falado com anestesista, instrumentistas e uma colega profissional dela.
Chegamos ao HGU, fomos prontamente atendidos e encaminhados, minha mãe já estava a caminho e seria a minha acompanhante. Procedimentos normais foram tomados. Veia soro, medicamento...
Minha mãe chegou, eu já estava preparada, apenas aguardando o chamado medico. Quando ela entrou no quarto, obviamente meu olhos encheram de lagrimas. Durante as poucas semanas que vivemos a gestação, o lado avó de minha mãe ficou a flor da pele. Lãs finas e coloridas tomaram espaços na casa de meus pais. Revistas de receitas de roupinhas e mantas estavam por todos os cantos. Fora os relatos de alegria, onde meu pai falava da empolgação da mãe, e vice versa. Não era de estranhar meu olhos marejados quando a vi. Sem contar que ela é minha mãe. Quantas vezes consegui sossego somente no colo dela, quantas vezes o silencio dela foi mais compreensível que qualquer outra coisa no mundo... Tenho imensa gratidão de ter a mãe que tenho, o pai que tenho, a família que tenho. Temos laços tortos as vezes, talvez não tão lindos como laços de cetim mas fortes como nó de cipó. Amo muito e para sempre.
As enfermeiras da ala cirúrgica chegaram empurrando a maca. Despedi de meu marido, tão companheiro, e de minha mãe.
Já na sala de cirurgia tive contato com pessoas agradáveis. A enfermeira era falante, Ana Paula o nome dela. Um alto astral que só vendo, capaz de elevar a alma mesmo em momentos como o que eu estava vivendo.
Ela fez perguntas e falou muito, disse que logo eu me recuperaria, que uma amiga tinha passado exatamente pela mesma situação mas que há poucos tinhas estava feliz como uma nova gravidez. A propósito, quando entramos em dada situação parece que há mais pessoas na mesma do que imaginamos, disso falo depois.
O anestesista me lembrou o Jô soares, porem na versão ruiva. Concentrado e sutil nas respostas as minhas perguntas.
Quanto eu soube que a cirurgia teria anestesia raque (sei la se escreve assim), passou pela minha cabeça a possibilidade de manter-me consciente durante o procedimento. Fato: havia essa possibilidade. Ao contrario de muitas pessoas, eu prefiro assim. Prefiro saber exatamente o que esta ocorrendo, o desconhecido, para mim, gera um desconforto maior do que uma realidade dura.
Conversei com o anestesista e falei que queria ficar sóbria. Ele sorriu e disse que tudo bem, inclusive que era preferível Uma pessoa consciente consegue relatar melhor qualquer alteração. Falou que diminuiria as chances de eu vomitar, aspirar meu vomito para os pulmões e morrer afogada (trágico, mas ele falou bem assim), ri, pareceu-me uma piada do tipo humor negro.
 Eu tinha direito a um porre, como ele disse, e injetou o medicamento no soro. Conforme ele tinha alertado, eu senti o mundo girar e após alguns instantes corajosa.
Não sentia bem uma coragem, mas também não tinha medo. Acho que sentia uma imensa frustração, sensação de fracasso e impotência. Ficar ou não corajosa não mudava muito a situação, mas senti que meu coração ficou calmo. Também facilitou o relaxamento do meu corpo para que ele pudesse acertar o intervalo de minhas vértebras para a anestesia entrar em ação.
A medica chegou e tudo foi dado inicio. Senti enjôo no inicio, avisei o anestesista, ele aplicou outro medicamento, melhorei. Podia escutar toda a conversa e o procedimento. Também sentia meu corpo balançar na maca. O negocio é bruto mesmo. Fiquei imaginando como seria dentro de mim e o tamanho do estrago. Foi feito sucção do sangue hemorrágico, e esse pude ver correr por um cano, evitei olhar, não valia a pena.
Os equipamentos da sala eram todos automatizados. De tempo em tempo a pressão era medida em meu braço, assim como meus batimentos cardíacos. As medicas conversavam sobre assuntos aleatórios, parecia que estávamos fazendo as unhas ou tomando um café. Não vejo problema nenhum nisso. Trabalho é trabalho, e o fato de estarem à vontade, indicava, ao meu ver, que tudo estava sob controle. Ouvi quanto retiraram minha trompa direita e também quando ela pediu para que o material (meu bebe) fosse colocado em um vidro e encaminhado para análise. Ate o momento não tinha me dado conta que teria exame nesse aspecto.
A cirurgia terminou, todos respiraram aliviados (daquele jeito que só se vem em sala cirúrgica), e a medica veio falar comigo. Carinhosa, pegou em minha mão e afirmou que tudo estava como o esperado, que o procedimento foi realizado conforme planejado e que o corte foi baixo, pequeno e com pontos de cirurgia plástica para melhorar a chance de uma boa cicatrização.
A enfermeira falante, perguntou se eu queria ver o vidro com o material, acenei que sim. Era um potinho com formol, onde estava a trompa, restos dela, grudados em uma bolinha de ping pong cheia de água. Não era possível ver através da placenta, somente um liquido transparente atrás de um vidro embaçado. Fiquei admirada com o tamanho, e imaginei que o neném continuava no lugar mais especial do mundo, feito só para ele.
Dia 05/jul/12 as 21:00, tudo tinha acabado, eu estava meio chumbadinha ainda porque não conseguia pensar em algo muito profundo. Pareceu-me que no momento seqüente a cirurgia, sai da fraqueza de perda para uma força de luta, afinal a sobrevivência bateu na bunda. Eu precisava sair nadando.
No quarto: expectativas, relatei tudo. As horas passaram, e fomos dormir, anestesiada em todos os sentidos. Boa noite e ate amanha.

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