terça-feira, 10 de julho de 2012

GE – parte 10: indo mais fundo e hora de emergir

Relatos de uma GE – parte 10: indo mais fundo e hora de emergir.

O Adriano já de inicio, foi um perfeito cuidador. Arrumou nossa cama, ajeitou espaço para tudo e ainda fez um cronograma dos horários dos remédios. Madrugada a dentro eu sô escutava o celular tocar e sentia ele colocando em meus lábios três comprimidos, antibiótico e analgésicos.
A primeira noite foi cheia de sonhos e pesadelos, acordei muitas vezes dando pequenos pulos, os quais faziam cada ponto interno arder. Não havia posição, se não, deitada de barriga para cima. Não tinha nem como me aconchegar no colo do meu amor. Foi barra, é barra.
Acordei sabendo que tudo estava errado, que eu tinha que ficar bem, comer bem, urinar bem, defecar bem, bem bem bem... e como é possível ficar bem?
E o tal: “se cuida”... Como era possível me cuidar? nem sentar na cama sozinha conseguia.
O que aconteceu nesse sábado foi a mais pura fossa cheia de cocos.
Revivi o pesadelo todo varias vezes e a cada dor no buraco que ficou em mim, batia a maior tristeza, bastava respirar. Acordei chorando, tomei os remédios chorando, fui fazer xixi chorando, tomei café chorando, tomei mais remédios chorando, almocei chorando, tomei banho chorando, dormi chorando.
Nada parece ser o suficiente em certas horas, nem mesmo o carinho e cuidado do meu marido, me questionei como esposa, como mulher, afinal ele escolheu a mim para ser a mãe de seus filhos, mas que mãe? Questionei minha parcela de culpa nisso, questionei as pessoas, questionei a ciência, questionei a medicina, questionei a minha fé, questionei o mundo.  Busquei culpados, busquei salvadores, busquei forças onde não tinha. Em vão.
Sim, um drama generalizado. Escrevendo agora vejo que ampliei meus olhares e que estou mais madura no momento. Sinto que os pensamentos que tive não são parecidos como os que tenho hoje. Estou em mutação.
O fato é que precisava passar por toda essa fossa cheia de cocos. Vivi brandamente o luto naquele dia. Resolvi que não queria ver ninguém. Falar com ninguém, escutar ninguém. Talvez se eu fosse uma avestruz eu estaria com a cabeça bem enterrada. Sempre tive muito ciúmes das minhas fossas e por isso não dividia com ninguém. A ideia que passava em minha cabeça era que teria ao meu redor abrutes. Entendam, não to chamando ninguém de abutre, apenas contando como eu estava me sentindo e o que pensava. Imaginava pessoas ao meu redor com pena nos dois sentidos, dó e penas pretas de abutres... Lembrei agora da observação que uma amiga fez outrora: “você não tem que ser forte sempre, estar vem sempre e não tem que guardar isso so para você”. Talvez essa seja uma característica minha, de não querer compartilhar minhas fraquezas e de não querer que as pessoas que amo me vejam no chão. Estou errada, eu sei. Prometo melhorar.
Desde o amanhecer daquele sábado, o Adriano estava igual barata tonta, indo e vindo, remédios, água, checar temperatura, checar o corte, desligar telefone, ligar para as pessoas falando que eu não queria ver ninguém, dispensar visitas, dar banho, trocar roupa. No egoísmo o levei, amarrado em um meteoro de cem toneladas, para o fundo do poço.
Choramos os dois e conversamos, muito.
Depois que o acontecimento se espalhou, recebemos apoios, muitos via sms. Não posso deixar de falar que algo foi unânime em todos os recados, mensagens, e ligações, não teve exceção: logo vcs terão outro filho.
Inicialmente esse voto foi reconfortante, ate mesmo da equipe medica ouvimos. Mas no dia da fossa com cocos, isso começou a soar como uma nota desafinada, afinal: nós queríamos “aquele” bebe. Não nos importávamos com o futuro, estávamos vivendo na pele o passado recente e o presente, como poderíamos pensar no futuro? Como poderíamos pensar em outro filho? Como poderiam desfazer rapidamente do neném que acabou de deixar de viver?

Novamente o drama amplificado pelo dia da fossa com cocos. O caos, eu sei, mas contestar, questionar, ficar com raiva, sentir desprezo, fez parte de nosso luto e consequente reconstrução e organização dos pensamentos, isso porque, no final do dia percebemos que não adiantou em nada questionar o universo, pois a vida continuou e precisávamos nos adaptar. Foi o que começamos a fazer quando, inesperadamente tivemos a visita do pai do Adriano e de sua companheira. Amáveis, agradecerei para sempre a teimosia em nos visitar. Obrigada.

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